A respeito de um questionamento feito acerca do avanço do mercado da propaganda em Sergipe, simplesmente resolvi repassar uma historinha, ou melhor, um fato que a princípio foi motivo de muita brincadeira e gozação no meio publicitário. É, mas foi só a princípio mesmo. O problema é que na maioria das vezes a vida supera a ficção e a caricatura é apenas a exacerbação de uma verdade cotidiana. Desse modo, um fato que poderia pertencer para sempre a um repertório de ficção, fez com que a divisão homóloga entre publicitários e não-publicitários fosse colocada em pauta como prioridade absoluta. Em favor, lógico, das relações sociais na atividade, bem como a valoração das respectivas categorias em termos de status.
Assim sucedeu. Muito aborrecido porque foi levar uma encomenda, e o cliente que o recebeu tratou-o mal, o boy chegou à agência e disse ao diretor: – “Quero comunicar ao senhor que a partir deste momento vou desistir da propaganda!” E mal terminara a frase, a carteira de trabalho já estava estampada na mesa – “Não quero nem saber, quero minhas contas!”
No início da década de 80, e do mercado propriamente dito da propaganda em Sergipe, é certo que não havia oposição entre publicitários e profissionais de administração no interior das poucas agências existentes. Pois é, ao contrário do que acontecia nos mercados mais estruturados e desenvolvidos do Sul do país, todo mundo que trabalhava em agência por aqui achava que ‘fazia propaganda’ e, por extensão, achava-se publicitário. Naturalmente, digno de toda aquela aura de encantamento que a função proporcionava e permitia. Se bem que naquela época também já existisse, claro, um sistema de prestígio (não tão distinto quanto hoje) em que a valoração da cada elemento encontrava-se diretamente vinculada às atividades desempenhadas. Ou seja, atividades artísticas, técnicas, burocráticas e comerciais.
Agora, quanto à distinção, ou melhor, à confusão entre as categorias, o fato devia-se a duas razões primordiais. Primeira: muito embora a mais antiga agência de publicidade do Brasil tenha sido fundada em 1914 (em São Paulo), somente em 1966 foi aprovada a normatização da profissão de publicitário. Isto quer dizer que (no início da década de 80) estávamos a pouco mais de uma década da regulamentação e nem sabíamos que nos encontrávamos tão perto. Na verdade, tudo era por conta da falta de comunicação com os outros mercados.
Segunda razão: apesar do grande salto dado,quando o petróleo começou a jorrar em Carmópolis, em 1963, e de ter perdido seu jeito arredio e encabulado, Aracaju contava apenas com 250 mil habitantes e ainda conservava a simplicidade do antigo povoado que se transformou em capital, na colina do Santo Antônio. E foi justamente do alto dessa colina, no início dos tempos áureos da BP&M (a agência que detinha a conta da maioria dos grandes anunciantes do mercado, e na qual eu tive o prazer de trabalhar naquele ‘momento histórico’) que ouvimos do nosso heróico e estimado boy aquele tão extraordinário comunicado.
Na verdade, o pronunciamento (ou estouro) do nosso boy era uma constatação de que tínhamos ainda muito caminho a percorrer pela profissão afora. Não para aumentar a distância entre os profissionais ou as pessoas, mas simplesmente para evitar a confusão entre as categorias e alcançar a tão almejada profissionalização do nosso mercado publicitário. E que ainda hoje - a cada dia mais - estamos a fazer por merecer. E a prova de que temos realmente merecido é o número cada vez maior de jovens que se encaminham para a profissão: um público altamente vocacionado, com opinião e consciente de seu papel na sociedade.