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Aracaju,SE
Setembro/2010

Antônio da Cruz
Artista plástico nascido em Maruim (SE), ilustrador, chargista e pintor em várias técnicas.

Blog - Antônio da Cruz - 03/09/2010 08:03
A gestão das galerias e o mercado de arte  

Do acesso à arte, uma abordagem importante é a da função das galerias sob gerência privada e sob administração pública. O “marchand” ou comerciante de arte e/ou proprietário de uma galeria particular, tem como objetivo vender obras de arte dos seus grupos de artistas prediletos. Isto em Sergipe, São Paulo, Rio, Minas Gerais ou em qualquer lugar do mundo.

Figura central neste contexto, ao marchand é assegurado o direito de escolher de quem quer comprar e a quem quer vender. Ele controla preços, estabelece cotas de produção, amplia ou reduz a oferta de obras, muda de artista quando achar que um dos seus preferidos saturou a praça com o mesmo tipo de obra. Este, que artistas amam e odeiam, tradicionalmente dinamiza o que se pode chamar de mercado de arte.

Alguns artistas saturam conscientemente o que existe de mercado com larga produção seriada, como se fizessem gravuras e a preços muito baixos. É comum alguns cismarem em culpar a galeria pública de arte pelo fracasso das suas vendas. Na verdade, galeria de arte sob administração pública tem como primeira função difundir as artes; gerar público imediato e futuro, além de acolher todos os artistas e públicos sem discriminação; nela, a comercialização é consequência.

Os espaços das galerias públicas não devem ficar vazios sob o pretexto cínico de nelas só poderem expor celebridades. Galeria de arte pública ociosa é desperdício do erário, principalmente se há tanta gente disposta a expor.

O administrador público deve ser imparcial, sem preferências, rejeições e cismas pessoais ou atitudes vingativas, principalmente quando o assunto é lidar com artistas. Para haver justiça, o acesso à pauta deve se dar através do regimento e de uma comissão curadora que contemporize os neófitos afoitos e reconheça os talentos consistentes. Em que pese saber-se que há o tipo consagrado, mas falastrão, e o novo talento assertivo. O público do ramo, por seu turno, sabe diferençar os dois tipos.

A exposição típica difere da comercialização propriamente, também sob o ponto de vista legal. O Fisco, por exemplo, libera obras para exposição em outros estados mediante declaração, sem cobrar impostos. Na volta das obras ao estado de origem o responsável pelas obras deve se apresentar e declarar se alguma obra foi vendida ou se todas voltaram – certamente, considerando que a exposição se constitui numa “vitrine” para o artista e nela, necessariamente, não tem de haver comercialização de obras.

A galeria pública se firma pela democratização do acesso às exposições. Grupos de estudantes em todos os níveis de escolaridade, assim como de turistas, diletantes, colecionadores virtuais e reais devem ser estimulados a frequentá-las, inclusive fora do expediente comercial. Uma galeria de pauta repleta amplia o seu público. Os espaços vazios na pauta frustram o frequentador assíduo e desestimula as visitas.

Em Sergipe o mercado de arte é tímido. Os “marchands” aos poucos, como em vários lugares, têm sido substituídos pelos decoradores, designers de interiores e arquitetos. Caso haja responsáveis pela pauperização desse já combalido mercado, serão, além da variação conjuntural da economia, quem é do ramo e não sabe se inserir nele gerenciando mal o próprio negócio. Falta, portanto, profissionalismo. Quem tem convicção no trabalho que faz não se sente ameaçado por iniciantes, como se denunciam os incompetentes.

O vigor deste tipo de mercado e a valorização do artista começam pelas atitudes dos próprios artistas. O mercado exigente continuará dependendo, principalmente da qualidade da obra, do interesse e da determinação do artista a partir de atitudes zelosamente profissionais suas, de quem lhe represente, e, se alguém duvida, até do carisma e do caráter de cada um.

A galeria de arte meramente comercial “democratiza” pelo preço, quando se pode pagar para ter uma obra com exclusividade. As galerias públicas em Sergipe sequer emitem nota fiscal, logo, qualquer transação comercial deve ser entre o artista e o adquirente da obra. Ao artista cabe, na secretaria da fazenda, obter a nota avulsa para o seu cliente.
O pretendente a ser marchand deve organizar o seu negócio particularmente. Que se faça a distinção entre o público e o privado. A rigor, uma galeria pública de arte não é um balcão de negócios do diretor, onde ele saque sua comissão a cada venda e fique ansioso para obter mais lucro sobre o trabalho do incauto artista.
 


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