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Aracaju,SE
Julho/2010

Déborah Pimentel
Psicanalista, presidente do Círculo Brasileiro de Psicanálise.
Contatos através do email: deborah@infonet.com.br

Blog - Déborah Pimentel - 19/07/2010 16:12
Governador Déda e a UFS versus os médicos de Sergipe 

Circula no Conselho Regional de Medicina - Cremese -, um documento que nos deixou indignados, revoltados, consternados, estupefatos e horrorizados. O governador Marcelo Déda pediu, através de uma carta datada de 4 de junho de 2010, ao Conselho Federal de Medicina - CFM -, apoio para a abertura da nova Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Sergipe em Lagarto.

Nela, o governador Marcelo Déda fez uma longa exposição de motivos para tal demanda. A justificativa apresentada por ele traz, também, a assinatura da Secretaria de Estado da Saúde de Sergipe e, por conseguinte, implicitamente, da médica que responde por aquela pasta, a Dra. Mônica Sampaio, ou talvez do seu antecessor, outro médico, o Dr. Rogério Carvalho.

O que chama a atenção são as razões expostas pelo governador Marcelo Déda e seus assessores médicos para convencer o CFM de dar o seu apoio à UFS, e que dizem respeito à atitude dos médicos de Sergipe em suas práticas profissionais. Diz ele:

"[...] essas (as práticas) guardam um grau de degradação dos valores éticos e falta de compromisso com o cuidado aos pacientes, configurando uma prática médica degradada, que atua, por um lado, com um paradigma científico defasado e, por outro, como uma prática técnica e ética não comprometida com o cuidado do paciente". Trecho retirado da carta ipsis verbis, porém com grifos nossos.

O governador, sempre que tem oportunidade, tenta transferir a responsabilidade pelo caos das políticas públicas de saúde do seu mandato para os médicos. A sua estratégia é criar situações que desviem as atenções dos descontroles na esfera da saúde, colocando o médico como o grande vilão e algoz diante da população, como fez naquele episódio da denúncia contra médicos em delegacia de polícia (refiro-me à suposta falta de profissionais no Huse durante o plantão de Natal de 2009).

A promotoria, entretanto, entendeu que naquela ocasião os médicos eram inocentes, que alguns sequer trabalhavam para aquele hospital e, ainda, que houve arbitrariedade, abuso de poder e incapacidade administrativa da Diretoria do Hospital João Alves Filho, resultando contra ela e o Governo várias ações de danos morais.

Os comentários dos conselheiros do Cremese giravam em torno do ultraje das justificativas apresentadas pelo governador e seu staff na referida carta, em que se colocavam, de forma agressiva, contra toda a categoria médica que, apesar das más condições de trabalho e dos baixos salários oferecidos pelo Estado, presta bons serviços à população.

Prossegue o governador na justificativa do seu pedido para o CFM: "O novo curso deverá ser o dispositivo de introdução de uma nova cultura". Ora, que cultura é essa? A cultura da degradação? Causa espécie que o nosso magnífico reitor da UFS, Josué Modesto dos Passos Subrinho, não tenha se manifestado oficialmente, uma vez que é com este tipo de agressão que o governador defende os interesses daquela Universidade, desmerecendo e desqualificando toda a categoria médica, ou seja, ex-alunos e professores, com tão ingratos argumentos que arranham a imagem da própria Faculdade de Medicina nas comemorações de meio século de existência e maculam toda uma geração de médicos ali formados e que dela tanto se orgulham.

Serão esses médicos com paradigmas científicos defasados e com suas práticas antiéticas e degradantes que irão ensinar no novo curso de Medicina em Lagarto? Ou a UFS, com ajuda do Governo de Sergipe, importará professores da USP, referência acadêmica deste país? É estarrecedora a falta de pudor do governador de falar mal de toda a categoria médica em Sergipe ao pedir o seu apoio junto ao CFM. É surpreendente também que a UFS concorde submissa com os argumentos que ferem a sua própria imagem e permaneça silenciosa.

O vice-presidente do CFM, Emmanuel Fortes, em visita ao Cremese dia 13 de julho de 2010, disse no meio de sua palestra que o Conselho se comprometia com Sergipe e iria se manifestar de forma enérgica sobre o episódio. Queremos crer que Henrique Batista, o nosso presidente em Sergipe, também o fará. Acreditamos que as entidades médicas presididas pelo colega Petrônio Gomes também se manifestarão. Esperemos, pois, ou então, que nos calemos para sempre.


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