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Aracaju,SE
Setembro/2010

Déborah Pimentel
Psicanalista, presidente do Círculo Brasileiro de Psicanálise.
Contatos através do email: deborah@infonet.com.br

Blog - Déborah Pimentel - 27/05/2010 08:46
Psicopatia da vida cotidiana 

Se abrirmos os jornais e assistirmos o noticiário com um olhar mais atento, facilmente percebe-se a extensão da violência e as múltiplas faces da maldade humana.


Esta semana que passou vimos a condenação dos pastores Estevam e Sonia Hernandes, líderes da igreja Renascer em Cristo e que vêm sendo processados por centenas de fieis e pelo próprio Ministério Público. A Igreja Católica também tem sido vedete de grande constrangimento público porquanto as autoridades eclesiásticas terem sido omissas e até coniventes com os padres pedófilos.

Neste último domingo lemos na Folha de S.Paulo acerca de um falso padre que enganou fieis por dois anos com homilias impecáveis, realização de casamentos, batizados, missas e ouvindo confissões. Já em Sergipe descobrimos um falso médico que realizou cirurgias bem sucedidas.
Governantes explicam com naturalidade desvios de verbas públicas, caixa dois, mensalões, malas de dinheiro. Há uma ausência de culpa ou remorso e total falta de constrangimento quando pegos em flagrante com dinheiro nas cuecas e meias e simultaneamente entram em movimentos de combate à corrupção.

É espúria a relação do Governo Federal com grupos organizados rurais que recebem sua ajuda, aval, financiamento e leniência e invadem terras produtivas, destroem, depredam e saqueiam propriedades privadas em cenas de banditismo explícito.

Estarrece-nos ver organizações que burlam seus resultados para vender as suas ações na bolsa ou as que fraudam o peso de mercadorias, como as duas importantes fábricas de chocolates Lacta e Garoto que foram autuadas esta semana pela Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça, porque os seus ovos de páscoa estavam pesando menos do que anunciados e auferiram importante lucro com isso.

Há de se desfiar um rosário de inúmeros exemplos sobre as psicopatias do cotidiano e entre elas o Assédio Moral e o Bullyng que se caracteriza pela humilhação promovida entre escolares, crianças e adolescentes.

A violência dos dias atuais tanto pode ser à luz do dia, nas ruas ou dentro de uma delegacia, fato recente em que uma mulher lá foi assaltada, ou ainda como a protagonizada pela ilustre promotora na intimidade de sua casa onde torturava sua indefesa filha de 2 anos, ou ainda como a praticada pelo Estado omisso, em que você vê crianças, adultos e velhos abandonados nas ruas à própria sorte e privados de dignidade e condições básicas garantidas pela Carta Magna.

O pior é que nós estamos entorpecidos diante destas noticias e cenas brutais, e assistimos a elas, muitas vezes sem reação, afeto ou indignação. É a mídia, repetindo exaustivamente relatos dos dramas familiares e cenas de barbárie, que cria em nós, um efeito de comoção.

A maldade dança sob nossos olhos ininterruptamente e se maquia e se mascara de diversas formas.

Nem sempre os psicopatas são identificados, depende muito do grau de psicopatia, se baixa, moderada ou grave. Convive-se com eles no cotidiano, pois nem todos se transformam em marginais ou assassinos, e levam uma vida aparentemente normal, exercendo seu poder de sedução, manipulando, traindo, tirando vantagens e fragilizando os vulneráveis, em relacionamentos predatórios.


Por outro lado, existem perversões e perversões, e há de se considerar esta psicopatia do cotidiano e reconhecer que ela diz respeito em graus diversos a qualquer um.

É preciso falar desta violência que impera no cotidiano e elaborar a maldade que nos é intrínseca e isso talvez possa ser feito nos tornando responsáveis por um caminho simbólico para a violência que habita em cada sujeito. Freud para ilustrar isso em 1930, no seu texto Mal estar na civilização, cita o poeta Heine: “Minha disposição é a mais pacífica. Os meus desejos são: uma humilde cabana com um teto de palha, mas boa cama, boa comida, o leite e a manteiga mais frescos, flores em minha janela e algumas belas árvores em frente à minha porta; e, se Deus quiser tornar completa a minha felicidade, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos enforcados nessas árvores. Antes da morte deles, eu, tocado em meu coração, lhes perdoarei todo o mal que em vida me fizeram. Deve-se, é verdade, perdoar os inimigos - mas não antes de terem sido enforcados”.

A cultura terá que se haver com estas questões.

 

 


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