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Aracaju,SE
Julho/2010

Vina Torto
Compositor e vocalista da banda Psicodélicos e Psicóticos, Mestrando pelo programa multidisciplinar em cultura e sociedade pela UFBA, Pós-graduando (especialização) em Sergipe: Sociedade e cultura pela Pio X. Contatos através do email: vinatorto@bol.com.br

Blog - Vina Torto - 22/07/2010 07:32
Jovem Guarda e música brega 

Na década de 60, surge no Brasil a Jovem Guarda. Com suas músicas acompanhadas por guitarras elétricas, ritmo dançante, eu tenho como hipótese que esse movimento foi conquistando em seus primeiros momentos, um filão de público oriundo das classes sociais privilegiadas. Suas temáticas falando de maluquinhos rebeldes queimando pneus, mostrando compulsivamente a necessidade de se auto-afirmar com seus modelos de carros, adaptaram-se muito bem aos anseios desse setor social. No entanto, é bom lembrarmos que a Jovem Guarda tinha também como um traço muito marcante em seus repertórios, as letras que abordavam sobre os romances amorosos, e em sua maior parte, sobre romances ingênuos e juvenis.

Continuando. Na década de 70, a Jovem Guarda vai se transitar entre os setores populares da sociedade. É diante desse contexto que os artistas populares que se inspiraram nas baladas da Jovem Guarda, vão ser classificados primeiramente como cafonas, e depois como bregas. Bom, apesar da influência da Jovem Guarda na música brega se adentrar nos setores populares, ela vai se configurar de outra forma diante daquele cenário. Ai para mim é que começa a grande beleza da música brega: mesmo se apropriando de músicas que atendiam ao que hoje chamamos de mauricinhos, com suas letras muitas vezes esnobistas e ingenuamente românticas, ela termina por trazer outra forma de abordar o amor do iê iê iê. Em outras palavras, a música brega vai pender geralmente para o lado cruel do amor. Os romances amorosos na música brega são romances com cara de luto, são tragédias, são situações que envolvem muitas vezes um final sem glória, são visões e conclusões autodestrutivas, é o bar, a lamentação, a mágoa, o ódio, a vingança, a morte, etc.

Antes que algum leitor mais apressado entenda que eu estou querendo dizer que a Jovem Guarda não possui temáticas melancólicas sobre amor, eu afirmo com toda minha certeza que existem letras na Jovem Guarda que carregam essa característica. Quando uma música fala de amor, não só fala de alegrias, como também se fala da dor da separação, no entanto, eu, como ouvinte da Jovem Guarda e da música brega, posso dizer que a música brega possui letras desse teor melancólico com muito mais freqüência que a Jovem Guarda.

Acredito que essa relação da música brega com o luto do amor se deva inclusive pelas próprias carências em que vive o seu maior público-alvo, ou seja, os indivíduos marginalizados da sociedade. Por que digo isso? Ora, o indivíduo para viver, inevitavelmente possui escolhas, e por isso mesmo necessita encontrar referências para se sentir pertencido ao mundo. Levando-se em conta que esses indivíduos já são excluídos da educação, do saneamento, do lazer, da saúde, da segurança, etc, a única coisa que resta para eles acreditarem e se sentirem pertencidos é o amor, e por isso mesmo, quando ele perde esse amor, ele entra em desespero.

Outro ponto que eu acho bastante interessante na música brega é o fato dessa estética também trazer personagens excluídos da sociedade como o bêbado, a prostituta, o corno, o travesti, a amante, o cafetão, o bicheiro, dentre outros. O mais legal na música brega é justamente esse reflexo do povão. Até hoje, apesar dela se encontrar diluída em diversas realidades sócio-culturais e econômicas, ela ainda é uma musica mais gerada e mais consumida pelos setores subalternos. Não é por acaso que os artistas ainda lotam os puteiros, os bares de periferias, circos de lona, e por ai vai.

Eu gostaria muito que esse texto trouxesse para os leitores, não apenas uma informação referente a algumas diferenciações encontradas por mim nos repertórios da Jovem Guarda e da música brega. Sentiria uma grande felicidade se o leitor, além disso, conseguisse enxergar que a música brega, apesar de historicamente ter sido relacionada a algo descartável e voltado unicamente para o consumo imediato e, portanto, como algo sem identidade, reflete claramente as angústias e os anseios dos setores historicamente marginalizados da sociedade, e que por isso mesmo, não só retrata as dores desses indivíduos anônimos, sem direito a voz, como também se torna recíproca em sua linguagem com esse setor.
 


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