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Neste artigo eu gostaria de abordar a relação complexa da música local inserida no contexto globalizado. Já travei alguns debates semelhantes sobre esta questão, porém, o que eu percebo, é que infelizmente ainda insistimos em um conceito de local articulado a uma gênese identitária encarada como “pura”. E devido a esse discurso que perpetuamos a velha postura segregadora em relação a outras culturas.
O etnocentrismo manifestado pelos discursos da identidade local tende a ser excludente, por ele partir de uma perspectiva de que cada cultura possui traços definidos, como se determinados traços culturais fossem isolados de outras realidades. Por exemplo: quantos não gostam de apostar na identidade Aracajuana como praia de Atalaia, papagaio, cajueiros? Mas será que poderemos pensar esses traços apenas na realidade de Aracaju?
É importante pensar a música local inserida em uma rede complexa. Atualmente não podemos pensar em uma música local, se não a inserirmos em uma arena de trocas incessantes com diversas outras manifestações que se encontram além de suas fronteiras. Porém, não é por que eu acredite que a música local não possa ser reduzida às fronteiras específicas, que eu não acredite que não haja uma música local.
Para tentar esclarecer esse meu aparente paradoxo, eu vou de forma breve, explicar o que eu entendo o que seja um local. Para mim, uma localidade diz respeito a todo um conjunto de valores, de hábitos, de crenças, de condutas acumuladas ao longo da história dentro de um determinado lócus. Dentro desse lócus existem formas de hábitos, de códigos e de sistemas de significações que orientam as ações dos indivíduos que o compõe.
Partindo dessa perspectiva, é evidente que de certa forma um lugar demarca sua diferença em relação a um outro lugar. Vejamos: apesar de Salvador e Aracaju estarem inseridos em um contexto de trocas globais, alguns traços diferenciam os indivíduos de Salvador e de Aracaju, isso por que, tanto um lugar quanto o outro, possuem formas culturais que os distinguem, visto que cada um possui sua própria história.
Por outro lado, eu acredito que o conceito de música local se encontra por demais fragilizado. Por exemplo: o que é de Aracaju e o que é de Salvador, se ambas as realidades se confluem com um vasto repertório musical oriundo de todas as partes do mundo? Como podemos determinar um artista como sergipano ou baiano, se o contexto mundializado se caracteriza pela incessante mobilidade de indivíduos oriundos de diversas culturas?
A partir disso o leitor pode se questionar: a música local existe ou não? Sim, a música local existe, porém, a música local não existe definida em si mesma. Já que inevitavelmente cada cultura possui sua história, evidentemente que alguns traços são mais característicos em uma realidade do que em outras, e, portanto, se há diferenciações, existe a música sergipana e a música alagoana, por exemplo.
Por outro lado, como podemos afirmar que um artista oriundo de uma outra localidade, mas residente em Sergipe, faça de fato uma música sergipana? Mesmo que o artista resida em Sergipe por muito tempo, ele traz formas de ver o mundo e discursos adquiridos pela realidade anterior diferente da realidade atual da qual ele vive. Portanto, se existem fusões, não existe a música sergipana ou a musica alagoana de forma pura.
Portanto, a música local existe, visto que ela traz características diferenciais de outras realidades devido a sua especificidade histórica, porém, devemos reformular a nossa concepção sobre o que entendemos como local. Não cabe mais pensarmos em uma localidade como um ambiente fechado em si mesmo, como se nessa localidade não houvessem trocas entre diversas realidades.
Se por um lado não podemos afirmar a diluição das localidades por acharmos que essas realidades se encontram inseridas em uma esfera global, por outro, não podemos acreditar que diante desse contexto caracterizado pelas suas incessantes trocas globais, as localidades possam se diferenciar uma das outras, a ponto delas se isolarem de uma rede plural de culturas inseridas no mundo.
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